quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Sobre pipocas e flores

Outro dia eu passava ali pelo bairro do Rosarinho (eu adoro esse nome de bairro), e vi um sujeito no telhado, um negão imenso, pendurando as lâmpadas de piscar do Natal, que cada vez estão mais baratas. Perdão, agora tem que chamar “afro-descendente”, mas era um baita de um negão mesmo, inclusive meio pesado para aquele teto franzino. Quanto às lâmpadas, não sei que mistério é esse, mas cada dia estão mais baratas, acho que é o trabalho escravo na China. Acho que daqui a uns dias, a caixinha vai custar R$ 1,99. Quando eu era pirralho, essas coisas eram mais caras e difíceis.

Acho que a humanidade anda vivendo numa pressa dos diabos. O sujeito que em outubro já está se arrumando para o Natal, definitivamente está com pressa. Daqui a pouco vai começar aquela frescura das lojas do Recife: um calor de entortar concreto, e os funcionários daquelas lojas do centro usando o gorro do papai Noel. É pra derreter o juízo. Caramba, hoje eu só estou falando besteira!

Nem sei por que comecei a falar sobre o negão e o pisca-pisca do Natal. Ah, sim, lembrei. É que em meados de novembro já começa mesmo aquele clima de fim de ano, e a gente pensa nas besteiras que fez, nas que deixou de fazer, e nas que não deveria ter feito. São os tais balanços do ano. Olha eu, falando dos outros e me apressando...

Então me ocorreu que este ano está sendo muito atribulado, mas tive algumas boas idéias, que passo a relatar, na esperança de retribuir as bondades que têm me chegado dos meus poucos mas insistentes leitores.

Uma delas surgiu de uma longa caminhada com meu amigo Iramarai. Eu tinha saído do JC On Line, estava meio morgadão, largado, escrevendo só nos meus cadernos, com saudade daquela troca com os leitores, quando ele me deu um safanão espiritual e sugeriu a criação de um blog. Depois veio a Macksandra e me ensinou a fazer tudo direitinho. E vejam só o resultado: me comunico na hora que eu quero, lê quem quer, tenho escrito muito mais, e tenho adorado esta brincadeirinha.

Ontem mesmo eu estava numa fossa danada, macambúzio e sem animação, botei minha cronicazinha sobre o tema, e o que aconteceu? Um bocado de email na minha caixa postal, com palavras bonitas e animadoras, fora os telefonemas. É como uma gemada para o espírito.

Outra boa idéia deste ano foi o “momento Kinito’s”, que criei para mim mesmo, e me resultou em importantes e fundamentais decisões. Kinito’s, para quem não sabe, é uma pipoca salgada deliciosa, feita, obviamente, pela fábrica Kinito’s, perdão pela redundância. É um troço saborosíssimo, não sei o que eles colocam dentro, que dá até barato, é melhor que ópio, apesar de não ter ainda provado ópio, a não ser do futebol, que os intelectuais de meia tigela insistem em dizer que é o ópio do povo. Custa R$ 0,25 aqui em Seu Vital, mas a tal pipoca é vendida em toda esquina do Recife, dizem até que o dono da empresa está riquíssimo, deve estar mesmo e no fundo, bem que merece, porque o cara se garante no que faz.

Uma vez por dia, paro tudo o que estou fazendo, puxo da minha bolsa uma pipoca dessas e como bem devagar, tentando não pensar em nada, somente saboreando cada pipoquinha, que é bem crocante. É preciso exagerar no barulhinho, para ficar mais saboroso, e jogar para algum passarinho, se ele aparecer.

Nem sempre dá para ficar sem pensar nada, porque a cabeça da gente é uma máquina de produzir coisas, é impressionante. Mas o “Momento Kinito’s”, especialmente nas praças do Recife, foi uma das grandes idéias de 2005. Agora vai o alerta: tem que ser a pipoca salgada, que é realmente do outro mundo, muito melhor que aqueles biscoitinhos que o Proust comeu, e que rendeu uns sete livros em busca do tempo perdido. Tomei muitas decisões maravilhosas e pensei muita besteira também, mastigando o citado produto.

Outra boa idéia para 2005 foi deixar de fazer um bocado de coisas que tinha programado, obedecendo a uma lei natural da existência que se chama preguiça, já caminhando para a vagabundagem, porque adoro os vagabundos, ainda chegarei lá.

Sim, amigos, este ano finalmente introduzi a preguiça na minha agenda, apesar de ter sido atrapalhado bastante pela figura fantástica de um bar. Mas reduzi as idas ao cinema (porque está caro demais e são quase todos longe de onde moro), fiz menos exercícios, desisti de ser boxeador com o titio Jaime, aceitei que não nasci fisicamente preparado para beber whisky e quase não conheci boteco novo. Uma noite, me levaram ao tal do Borracharia, mas de longe, vi aquela multidão, tive um faniquito e dei meia volta.

Mais uma vez, não compareci a vários aniversários, batizados, noivados, chás de bêbê, bodas, despedidas de solteiro e casamentos, pela questão elementar da preguiça. Melhor, preguiça sem culpa. Ao casamento de Bruno Fontes eu só não fui porque estava em São Paulo, acompanhando o Santa Cruz, mas a culpa é dele, do Bruno. Não sei como o sujeito, em sã consciência, é capaz de marcar o casamento para o dia do jogo do Mais Querido.

Em 2005, assisti 90% menos de telejornais, e julgo que foi muito bom para minha saúde física e mental. Deixei para ver só o finalzinho, que tem as notícias do futebol e os gols da rodada. Descobri que estar mais desinformado não me atrapalhou em nada a vida. Pelo que sei, ninguém andou me chamando de burro por ai, porque eu não sabia os nomes de quem foi cassado e de quem roubou mais. Em troca, dei umas olhadinhas básicas nas novelas. Vi o primeiro capítulo dessa “Belíssima”, achei um barato, mas no segundo dia, já começou aquela baixaria previsível da mulher velha, rica e rabugenta ficar arrasando a menina bonita e gostosinha que já foi pobre, então já vi que não dá para o meu bico. Desliguei a TV e fui cuidar do meu jardim do quintal, que foi elogiado até por dona Fátima, a minha gerente de organização da casa.

Informo que pela primeira vez, em muitos anos, escapei do crediário que a dona Ermira faz todo ano, para comprar roupas novas para mim. Em compensação, estou com cada camisa que é de doer. Mas não canto vitória antes do 31 de dezembro. Ela pode chegar a qualquer momento, com a famosa frase: "Meu filho, fiz essas comprinhas pra você".

Uma das melhores idéias de 2005 foi uma ação besta, mas que me fez um bem danado. Cuidei com um zelo imenso do jardim do quintal e da frente da casa. Todo dia, um pouco, sem pressa. Quando menos notei, o jardim estava florescendo. Descobri que adoro ficar nesta leseira de aguar, plantar, mudar planta de lugar, enfim. Travei uma batalha heróica contra umas lagartixas (reptis lacertílios, de pequeno porte, especialmente da família dos geconídeos), que estavam detonando uma planta belíssima. Venci pelo cansaço, mas o que matei de lacertílios em 2005, não está no gibi.

A Kinito’s que me perdoe, mas cuidar do jardim é melhor que o “Momento Kinito’s”. Ah, já sei o que fazer quando terminar de vender o bar: vou botar uma cadeira no quintal, e comer uma pipoquinha olhando para as flores. Se aparecer passarinho, melhor.

23 comentários:

Anônimo disse...

Mais umA vez parabéns,Sama... vc consegue tirar leite de pedra !!!EXTRAI DA VIDA SÓ O NECESSÁRIO.adorei tua crônica.

bjos la Kinito’s

tatiana

Mariana disse...

Pô, Sama... Deu saudade inclusive da Kinito's. Pipoca desse tipo aqui no Rio, só doce, mole e com gosto de borracha. Vamos abrir uma importadora? Beijo
PS- Vou de 11 a 20 de novembro praí. Queria lhe ver e comprar um livrinho. Como faço? Beijo.

Anônimo disse...

Kinitos é foda. Calorias, gordura saturada. Minha filha(05) comia aquilo e eu disse para ela que iria ficar com gordura no sangue. Outro dia ela me disse que não estava vendo a gordura no sangue,mais eu cortei o kinitos do cardapio.
Tantas coisas nos levam a pensar, sem o kinitos. ABAIXO O KINITOS

Anônimo disse...

Pena que nem todo mundo consegue ver poesias nas coisas mais simples da vida.Tem gente complicada, que ver problema em tudo. Não consegue prestar atenção aos pequenos eventos cotidianos. O que se pode fazer né? eu digo: ABAIXO A CRÍTICA!!!

Anônimo disse...

Engraçado que a pessoa que fez a crítica acima ( 3º comnetário) não conseguiu captar a mensagem. Só disse que a pipoca não presta. Ainda bem que o blog e o fabricante da pipoca não sobrevivem desse tipo de gente. Que grosseria! POR FAVOR NÃO LEIA ESSE BLOG! aqui é lugar de gente de bem com vida, das coisas boas, ora bolas! e viva KINITOS!

Rosa disse...

Ei Sama,
voltando ao começo... Rosarinho realmente é um lindo nome de bairro :)
Beijos.

Adri disse...

Ti lindo, Saminha... me dá uma plantinha?
Cheiro!!

tiger disse...

tiger

fabiana disse...

Pedi a Tiger que te escrevesse algo e ele fez.
otima cronica, mas ainda nao me recuperei de tu escondido atraz da arvore...

E viva a pipoca Kinitos!

Ane disse...

Final de ano: me dar de presente uma volta às origens e conhecer o dono do Garrafu's, ver essa figura que faz tão bem (a partir da constatação de um crescimento de viciados no seu blog a cada dia) a todos nós. Esse era o projeto, mas com o bar trocando de dono não vai ser possível. Eu ia chegar de mansinho, e reconhecer o sorriso clicado na época da coluna no JC-Online - seria provável que não me identificasse como uma seguidora de seus "mantras". Agora, vou ficar na torcida de um esbarrão casual nas ruas de Casa Forte, onde volta e meia visito familiares. Bj, Ane.

monica crsostomo disse...

Em 2005 tb descobri o meu momento Kinito's.. mas por conta da pressão alta e das mazelas que a idade e os excessos (de tudo um pouco) que a gente comete durante a vida... nada de pipoca salgadinha.... O meu momento Kinito's é mesmo dar a passadinha diária do Estuário e relaxar, Qd tô aqui... por incrivel que pareça.. deixo os problemas de lado, pelo menos um pouquinho e aproveito cada palavra, cada risada!
PS: Samarone, no sábado (em que o glorioso Santinha mandou ver na casa da Barbie) fui eu que te liguei perguntando sobre o paradeiro da sanfona coral para levar meus filhos. Acabou que nem deu para ir para onde vcs estavam.. Mas no dmingo, estaremos lá. Ainda mais que a festa acontece em território sagrado!

Anônimo disse...

Ôô rapaz, que crônica massa! E que saudade danada da pipoca Kinito´s, essa só tem aí!! Boa lembrança, farei um momento kinito´s qdo for ao Recife! ;)
Agora, tbem estou com a colega acima, um dos meus momentos kinito´s é visitar seu blog.
Porisso me veio a pergunta, você tem algum outro meio de divulgação de suas cronicas, Sama? tipo algum jornal, ou meio de comunicação, além do Blog?

beijinhos,
Lu

Anônimo disse...

" Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim"

(A arte de ser feliz - Cecília Meireles)

achei q tinha a ver c sua cronica..
Lu

jamille disse...

Agora como um ex-dono de bar vc pode aproveitar bem seu jardim! Um dia eu chego lá, to começando devagarzinho com duas plantas!
Bjs.

Adri disse...

Quanta adequação e beleza na contribuição de Lu... esta mulher é uma flor!!

Kátia Rejane disse...

Samarone,adorei o seu "MOMENTO KINITO'S".
Me encanta o seu bairrismo.Ainda mais por conhecer alguns dos personagens a quem voce se refere.
Parabéns, suas crônicas me fizeram sentir novamente o prazer da leitura.

ivanzinho disse...

Kinitos é uma merda .bom mesmo é aquela massinha frita Karitó, tá ligado??? Se for pra entupir as veias, que seja em grande estilo!

Anônimo disse...

Que crônica linda! Trouxe um bom começo para o meu domingo... Quanto a tudo o que você colocou, digo que o melhor, para mim pelo menos, foi ler sua crônica mais freqüentemente - não de 5 em 5 dias...
Bem, espero que o ano que vem traga muitas boas novidades!
Grande abraço, Priscila

chiló disse...

Sama, pipoca Kinitos com uma coca bem gelada é uma mistura explosiva. Fuderosa!!

Abraço.

Anônimo disse...

Que bom ter me deparado frente a esse texto hj... já não me sinto tão estranha...
Obrigada
Ana

Anônimo disse...

Samaroni, já te vi, ñ te conheço, mas agora me senti tão próxima que lamentei não ter desenvolvido o cordial oi, tão atencioso, que você me direcionou há muito tempo em seu bar... Acho talvez pq tenha sido lá, certamente se isso tivesse ocorrido em seu Vital, teríamos, quem sabe, comido alguns sacos de pipoca regados a cerveja.
Prazer em ter te encontrado aqui.
Deus te abençoe e proteja iluminando sempre seu caminho.
Com admiração e afeto
Ana
Ah! Quanto às pragas das plantinhas, você sabe se infusão de fumo resolve mesmo?
Se já tiver usado e resolvido, conta p/ mim como fez - analuzia_67@hotmail.com – as minhas te agradecem ;)

Anônimo disse...

Wannessa Guilherme,...
Adorei, estava comendo pipoca, só que não era a Kinito's, já provou a Boku's? è tão gostosa. Como e adoro as duas. Viva as pipocas e o Jardim. Ah! E Salve Alceu, que pelas ruas que andei ....

Anônimo disse...

Pena que eu não tinha encontrado este artigo antes. Mas agora ja deixei na minha página Favorita. Amei, visse....