sábado, 19 de novembro de 2005

Entrevista com o poeta Rainer Maria Rilke - Parte I

Encontrei ontem, ao final da tarde, com o poeta alemão Riner Maria Rilke. Ele estava sentadinho, numa mesa do mercado de Casa Amarela, com aquele seu bigode bem assentado num rosto que me pareceu suave, apesar de marcado por golpes da vida. As sobrancelhas eram mansas e seu olhar exalava uma perplexidade feliz, diante daquele movimento intenso no mercado.

Ele bebericava um conhaque, e não tive a ousadia de interroga-lo sobre a marca, porque cada um com seu cada qual. Como ficamos bem próximos, vi que ele anotava pequenas coisas em um caderno grosso, sempre pontuando as anotações por silenciosas e demoradas pausas. Eu também comecei a tomar notas esparsas, para completar o primeiro volume da minha coleção “Divagações e inutilidades”.

Lá pelas tantas, nos falamos sobre algo que não lembro, talvez um comentário sobre o calor, essas coisas que iniciam conversas. Ele perguntou se eu escrevia poemas, respondi que sim, mas para guarda-las em minhas gavetas, porque a poesia não poderia ser ferida pela indelicadeza da escrita ruim. Ele abriu um sorriso e me chamou para sua mesa. Depois de muitos conhaques, já com a tarde trespassando para a noite, perguntei se podia fazer uma entrevista para um blog na Internet. O Rilke me abriu um sorriso e disse que não tinha muito a dizer. Mesmo assim, me respondeu às seguintes perguntas:

Eu: O Senhor diz, em seus escritos, que a gente deve preferir o difícil. Nos dias de hoje, é um contra-senso, porque as pessoas querem cada vez mais o amor fácil, não querem enfrentar a dificuldade de construir coisas coletivas, enfim. Continuas a pensar assim, depois de tantos anos?

Rilke: Primeiro, faça-me o favor de não me chamar de senhor. Somos iguais, nesta grande aventura da humanidade. Respondendo à tua pergunta, diria que os homens possuem, para todas as coisas, soluções fáceis e convencionais, as mais fáceis das soluções fáceis. Entretanto, é evidente que sempre se deve preferir o difícil: tudo o que vive lá cabe. Cada ser se desenvolve e se defende à sua maneira e tira de si próprio, a todo o custo e contra todos os empecilhos, essa forma única que é a sua. Conhecemos muito poucas coisas, mas a certeza de que devemos sempre preferir o difícil nunca deve nos abandonar. É bom estar só, porque a solidão é difícil. Se uma coisa é difícil, motivo mais forte para a desejar.

Eu: Você fala sobre isso, naquele seu famoso livro, "Cartas a um jovem poeta", e fala muito sobre as dificuldades da vida, com uma certa tranqüilidade, quase como se tivesse uma certeza antiga de que é este o caminho...
Rilke: Se construirmos a nossa existência sobre o lema de que devemos sempre dar preferência ao mais difícil, tudo o que ainda hoje nos parece singular se tornará familiar e fiel. Como olvidar esses mitos antigos que se encontram no início da história de todos os povos, os mitos dos dragões que, no momento supremo, se transformam em princesas?

(neste momento, Rilke olhou para mim com uma expressão muito serena, e completou)

Todos os dragões da nossa existência são talvez princesas que esperam ver-nos, um dia, belos e audazes. Todas as coisas assustadoras não são mais, talvez, do que coisas indefesas que esperam que as socorramos.

Eu: E no amor, a gente deve ir pelo mais difícil?
Rilke: Amar também é bom, porque o amor é difícil. O amor de um ser humano por outro é talvez a experiência mais difícil para cada um de nós, o mais superior testemunho de nós próprios, a obra absoluta em face da qual todas as outras são apenas ensaios. É por isso que os seres bastante novos, novos em tudo, não sabem amar e precisam aprender.

Eu: É preciso aprender a amar?
Rilke: Sim. O amor é a oportunidade única de sazonar, de adquirir forma, de nos tornarmos um universo para o ser amado. É uma alta exigência, uma cupidez sem limites, que faz daquele que ama um eleito solicitado pelo mais largo dos horizontes. Quando o amor aparece, os novos apenas deveriam enxergar nele o dever de trabalhar em si próprios. A faculdade de nos perdermos noutro ser, de nos entregarmos a outro ser, todas as formas de união, ainda não são para eles.

Primeiro, é preciso ajuntar muito tempo, acumular um tesouro. Quantos jovens existem que não sabem amar, que se limitam a entregar-se, como sucede habitualmente (e decerto a maioria limitar-se-á sempre a isto), e inclinam-se depois sob o peso do seu erro!

Eu: Amar é algo que vamos mesmo aprendendo durante a vida?
Rilke: Denomino o amor de “uma dura aprendizagem”. Em vez de nos dispersamos em brinquedos fáceis e levianos que permitem que os homens se furtem à seriedade da vida, talvez um progresso sutil, um certo alívio, possa então resultar para aqueles que nos acompanharem, muito tempo ainda depois do nosso trespasse. Isso já seria bastante.

Eu: E qual sua expectativa sobre o futuro do amor?
Rilke: O amor deixará de ser o comércio de um homem e de uma mulher para ser o de duas humanidades. Mais próximo do humano, será infinitamente amável e cheio de atenções, bom e claro em tudo o que realizar ou desfizer. Este será o amor que, combatendo duramente, agora preparamos: duas solidões que se protegem, se completam, se limitam e inclinam uma para a outra.

Os sexos estão talvez mais próximos do que se pensa e talvez seja a chave da grande renovação do universo: o homem e a mulher, libertos de todos os seus erros, de todas as suas dificuldades, não tornarão a procurar-se como contrários, mas como irmãos e como parentes. Unirão suas humanidades para suportar juntos, gravemente, pacientemente, o peso da carne difícil que lhes foi propiciada.

Neste momento, vendo já o poeta Rilke demonstrar um certo cansaço, perguntei se poderíamos continuar no dia seguinte. Ele aceitou, e será a segunda parte desta entrevista, que publicarei segunda-feira, se tudo der certo. Mas gostei muito disso, do "Unirão suas humanidades". Sim, foi uma bela tarde com o poeta. Espero que o segundo encontro seja também cheio de beleza e intensidade como foi o primeiro.

Informo que não o deixei pagar a conta.

2 comentários:

fabiana disse...

lido e compreendido.
um cheiro.

Gustavo disse...

Pequenas cosmovisão do homem
( para Rainer Maria Rilke)


Para viver meu caro, não necessitas muito.
Um ou dois abraços sinceros, um amor,
uma esperança, a lembrança de um piano,
o caminhar na floresta, o mar, a sineta
de um silêncio.

Para viver meu caro, não necessitas muito.
Dificuldades por todos os lados, uma dor,
alguns versos íntimos, um poema banal
a escutar você quando nada mais restar.

Para viver meu caro, não necessitas muito.
A sorte de encontrar um livro que seja você
nas palavras, vírgulas, espaços, hiatos mudos,
para que a solidão seja apenas a parte calada
de teu falar.

Para viver meu caro, não necessitas muito.
Um dia de chuva, a visão das águas correntes,
a face dos que envelhecem, um café, a caneca,
um cigarro, algumas lutas, uma vitória
nem que apenas no futebol
de botão.

Para viver meu caro, não necessitas muito.
Creres que nada permanece igual sempre
e a todo instante tudo muda, tudo muda
na eternidade de seu impermanente
mudar.

Para viver meu caro, necessitas suportar,
ser teu amigo íntimo, dar-se as mãos,
não temer
não temer
te acompanhar.