segunda-feira, 7 de novembro de 2005

Cada tempo tem sua marca, cada desolação tem sua maravilha

Já aconteceu comigo algumas vezes, e talvez seja por isso que eu encare com tanta tranqüilidade: novamente, estou na lona.

A primeira, depois que resolvi viver longe da família, aconteceu no Recife, onde moro. Eu morava na Casa do Estudante Universitário (CEU) da UFPE, e era um homem liso da cabeça aos pés, um sujeito que dependia fisicamente do Restaurante Universitário, o famoso "RU", quem não comeu naquele bandeijão não sabe o que é bom pra tosse. Algumas vezes, pedi vale-transporte emprestado aos amigos de moradia, para ir à Católica. De manhã estudava Educação Artística na Federal, e de noite fazia Jornalismo, na Católica. Um liso, um fodido, fazendo duas faculdades, era o que eu era, com 19 anos.

Estava todo malamanhado, liso de dar dó, e uma esquina antes da universidade, perto da rua do Príncipe, vi uma nota desmaiada no chão. Acho que era o equivalente a uns dez reais, hoje. Pisei em cima da bicha como quem pisa numa barata, rápido e com força. Olhei para os quatro lados, os quatro pontos cardeais, não tinha nenhuma velhinha procurando seu dinheiro, não tinha nenhum magricela cutucando os bolsos, ninguém por perto reclamando do azar. É hoje, foi o que pensei. Fui direto para o restaurante da Católica, pedi uma baita de uma sopa, um suco e um sanduba no capricho. Ah, que maravilha aquele rango inesperado...

Muitos anos depois, voltei ao Recife para ensinar Jornalismo na mesma Universidade. Então, fico achando que a vida é mesmo inexplicável, tudo segue seu rumo.

Outra vez foi em São Paulo. Eu tinha saído do Diário de Pernambuco por causa de uma rusga com o chefe, fui trabalhar numa ONG em Sampa, e três meses depois, a ONG quebrou. Fiquei novamente na pior, poderia voltar, tinha emprego garantido no jornal concorrente, mas resolvi ficar. Um frio do caralho, morava numa pensão, estava só o bagaço da cana, um baixo astrala da moléstia, quando olhei o saldo no banco: só tinha mais trinta contos. Na semana seguinte, quando nada mais restava, pintou um trabalho como free lancer num jornal da Igreja Católica, e fui me recompondo.

O trabalho no pequeno jornal da Igreja me abriu portas, depois fui para outros jornais e revistas, e graças a esta chance, no último minuto, pude escrever um livro que gosto muito, chamado Clamor.

Outra vez, eu cheguei perto da lona. Estava com um restinho de grana da demissão da Veja (perdão, amigos, a gente faz merda na vida), quase liso, quase fodido, quando concorri a uma bolsa de estudos de um ano, dada pela Fundação Ford.

“Essa bolsa já é tua”, vaticinou Gustavo.

A bolsa chegou quando eu já era um homem desprovido de saldo bancário.

Na outra vez que quebrei, Gustavo estava por perto e não me deixou passar maus momentos. Ele, um retirante, como eu, que fazia um doutorado sobre Ítalo Calvino, pagou os aluguéis pelos dois, garantiu o rango pelos dois, encaixotou minha mudança quando voltei para o Recife. Quer dizer: eu fiquei na lona, mas sem a contagem do juiz para anunciar o nocaute. Ah, o meu velho e inesquecível amigo Gustavito, que saudades de nossas infinitas conversas...

Uma vez, eu estava viajando pela Europa, três meses perambulando, e quando voltei para a casa de uns amigos em Viena, meu refúgio fundamental, eles tinham viajado para a Alemanha. Então fiquei só, na calçada, com uns cinco dólares, sem ter para onde ir, um frio do caralho, sem contato com ninguém conhecido. O que eu fiz? Peguei um cigarro (nessa época eu fumava o suficiente para ter uma carteira de cigarro no bolso) e acendi. Detalhe bom para a cena: era o último cigarro.

Fiquei fumando, no frio, olhando a neblina, achando que estava num beco sem saída, até que apareceu um casal que morava no prédio. No meu francês perfeito, expliquei tudo e ganhei 200 dólares de empréstimo. Eles tinham me visto uma ou duas vezes no prédio, se comoveram, abriram o cofrinho e me deram 200 dólares assim, do nada. Viajei para Paris na mesma noite, e na casa de Luzilá, onde eu estava hospedado, tinha chegado uma carta de uma amiga com 200 dólares dentro, fruto de um empréstimo que ela tinha feito.

Hoje me veio de novo o nocaute. De tanto investir no bar, zerou tudo. O bar está sendo vendido por causa do meu cansaço, mas não posso negar: quebrei dos pés à cabeça. A vizinha (dona da casa onde moro), acabou de chegar, cobrando o aluguel atrasado. Devo em Seu Vital, devo à minha chefa no trabalho, devo ao Enos, devo a Emília, a tia Flocely, devo a Gerrá (a passagem para São Paulo), devo a Nana, enfim. Devo à TIM, Telemar, Celpe, Compesa, só não devo ao cartão de crédito ou ao banco, porque não uso cartão de crédito nem faço empréstimo em banco, que não sou doido. De resto, só devo a Deus e ao mundo.

Em todas essas ocasiões, cheguei perto do limite físico e espiritual (quando vem aquele sentimento de que pior não pode ficar). E em todas elas, me veio uma força misteriosa, um impulso para a alma, uma reação tranqüila, apaziguada. No limiar, nasce a sensação de que a vida suporta bem mais do que imagino.

Mas... para que estou falando dessas coisas? Eu sei lá. Talvez porque eu tenha esta mania de ficar me colocando no lugar dos outros, imaginando possibilidades para a vida. Eu, este otimista desajeitado e confesso, cada vez mais manco de todas as certezas, acredito que alguém possa ler essas linhas, hoje, e tratar tudo com mais leveza.

Lembro que uma vez eu fiquei na lona no assunto do amor. Tive uma certeza interior que nunca mais amaria outra criatura como aquela. Sofri como um cão pulguento, sem as patas traseiras. Foi o pior sentimento que já vivi, e só eu sei o quanto doeu. Outro dia nos encontramos, foi bom, doce e sereno, porque envelhecemos alguns anos. Ela segue, eu sigo. Depois disso, outros amores apareceram, e foram misteriosamente fortes e importantes para ser o que sou. Cada vez mais, acho que só está ao lado da gente quem quer mesmo seguir com a gente, fazendo suas escolhas na medida do desejo e no tamanho do sentimento.

Agora só me ocorre mesmo um poema do uruguaio Mario Benedetti, onde ele diz que “cada lugar tem seu tempo, cada tempo sua marca, cada desolação, sua maravilha”.

11 comentários:

ana patrícia disse...

Putz...que histórias!!!!
E eu tenho certeza que, mais uma vez, é apenas um furacão, que vem, devasta, mas passa.
um beijo

Andreia Santos disse...

Sama,
Inicialmente fiquei sem palavras. Mas, tem uma frase que diz, mais ou menos assim: "o nordestino é antes de tudo um forte", mas não me lembro quem é o autor. E vc é esse homem forte, de alma generosa, otimista, abençoado, etc... E algo tem sido reforçado dentro de mim, é que quando tudo parece perdido, sempre há um outro caminho, sempre há uma saída. Tem até um dito popular: "quando DEUS fecha uma porta, ele abre uma janela" e pode até ser um janelão. Ele envia anjos para seus filhos, como o Gustavo seu amigo, esse é um bom exemplo. Anjo Gustavo.
Sama, estou aqui na torcida por você, sempre. Que DEUS te abençoe.
Beijosss

Anônimo disse...

"Cada vez mais, acho que só está ao lado da gente quem quer mesmo seguir com a gente, fazendo suas escolhas na medida do desejo e no tamanho do sentimento".
Maravilhoso Sama!

Adri disse...

Ô meu Poeta querido, que pindaíba do cacete, parecida com a minha!! Me veio agora à lembrança uma música, não sei quem canta, não sei quem compôs, toca no rádio velho do meu carro velho...e eu aumento o som: "... fica inteira comigo, que eu fico inteiro contigo, enquanto houver sentido, largo não, não, tua mão largo não..." Imagine agora os seus leitores cativos, embevecidos, apaixonados que somos, afinadíssimos, em uníssono, repetindo, a plenos pulmões, este refrão pra você: largo não, não, tua mão largo não...
Vamos seguindo...

Anônimo disse...

Querido Sama,

acho que todos nós já passamos por momentos assim, não é, e aí me veio uma musica acho que é de Ary Barroso, e que diz assim:
"É, também um pouco de uma raça,
que não tem medo de fumaça, ai ai
E não se entrega não"...
um grande beijo, e saiba que estamos por perto.. e torcendo!
Lu

Anônimo disse...

Meu querido,
Muitas vezes é preciso fazer da tragédia uma comédia, é o que faço sempre. Grana é circunstancial, ums dias sim outros não. Lucidez, bem querer, dignidade, decência, sensibilidade, isso vc tem para dar e sobrar, é o que importa.
Boa Sorte!
Naire

Anônimo disse...

Querido Samarone,

O nosso maluco Tom Zé uma vez retrucou ao jornalista frente a formulação: - E quando voce era pobre... ? - Pobre eu nunca fui não, o que eu não tinha era dinheiro.
Sua pessoa é linda, cheia da energia, criativa, afetiva, doce... só tem que arrumar uma atividade não muito chata para fazer para "garantir" que não vai ficar na lona até que a manada de elefantes passe. De certa forma tranquilidade é pagar o conforto básico para viver o dia a dia.
Enquanto o bar não for vendido tem que fazer ele render um dinheirinho... as festas de natal estão chegando... monte um esquema no bar para atender as cronfraternizações das empresas, escolas, clínicas (tipo pacote com comida, bebida e música). Tem uma galera massa que pode oferecer o menu... vc é jornalista pesquise.

Sorte!
Beijos
EU

Ivana de Souza disse...

Mesmo estirado na lona, o Santinha te fez sorrir. Vale isso e vale amigo. Que perdoa dívida, empresta dinheiro e enche a cara com e para ouvir você.

Maria Moura disse...

Sama,
quando as coisas não acontecem do jeito que eu esperava canto pra mim um velho sambinha:
"tudo está no seu lugar. Graças a Deus. Graças a Deus!"...
(só sei isso)
Mais tarde sempre me dou conta de que o pior já passou. Foi só uma noite difícil.
Se servir de alento, devo dizer que a mim não estás devendo nada. (rs)
Foi só pra relaxar, amigo.
Tudo de bom pra você, viu?
Acredite: também dessa vez, vai passar.

Mack Costa disse...

Tão bom saber mais de tu... Se isso consola, ajuda ou levanta: te amo cada vez mais, viu? E quero ouvir logo o final feliz de mais uma de tuas histórias!

Beijo beijo!

Anônimo disse...

excelente sua crônica, pena que seja verdade.

abraço

Thiago Corrêa