segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Confissões de um leitor obsessivo-compulsivo - Parte I

Aqui vai uma confissão besta, mas a vida é cheia de besteiras essenciais: sou um leitor obsessivo-compulsivo. É uma questão psicológica, fenomenológica, espiritual, que às vezes me causa problemas. Leio o tempo todo, a todo instante, em lugares os mais inusitados, contextos os mais desfavoráveis. Se eu fosse pára-quedista, iria querer ler durante o salto. Mas, como tenho pavor de altura, leio aqui no chão, onde a queda dói menos.

Não saio de casa sem um livro na bolsa. Não viajo sem uma boa leitura, previamente selecionada. Às vezes, nesta minha mente doentia, gasto mais tempo escolhendo “o” livro da viagem, do que arrumando o mochilão. Já voltei da estação do metrô, em São Paulo, quando descobri que no mochilão, tinha esquecido de colocar um bom livro.

Muitas dores da alma curei em livrarias. A Livro 7, naquele meu tempo de liso oficial, de Casa do Estudante Universitário, foi minha psicanálise. Até hoje acho o Tarcisio Pereira uma espécie de coroinha, com tendências à santidade. Como o dinheiro era pouco, o dilema existencial sobre qual livro comprar, me consumia longas horas. Muitas vezes virei um boi, e fiquei ruminando horas para definir qual livro seria o escolhido. Quem me olhasse de longe diria: "puxa vida, ali está um pensador, um filósofo". Não era nada disso, era a crueldade de escolher entre um Rubem Braga e uma Clarice Lispector.

À saída da livraria, depois desta querela metafísica, eu sentia que algo já tinha mudado. Com um livro novo na bolsa, a vida ficava mais leve. Vinha o momento seguinte, o de tomar posse do livro. Ali, eu ganhava uma APE (alta provisória da existência). Aquele momento mágico, transcedental, de sentar num boteco, um copo sujo, olhar o livro, botar o nome, data, local. Sim, porque até o momento da inscrição, o livro é ainda do autor. Quando se coloca o nome, está selado o encontro, e algo começa a nascer.

Após o primeiro gole, vem o momento de dar uma boa cheirada no livro, passando as páginas rente ao nariz. Livro é como gente, cada um tem seu cheiro, e é diferente pacas. Afirmo com todas as letras e baseado em 25 anos de leitura obsessiva: o cheiro do livro dá barato. Nunca cheirei cocaína, mas afirmo do alto da minha prosopopéia: cheirar livro deixa o camarada meio malucão.

Quando viajo, não vou aos lugares turísticos tradicionais. Minha bússola afetiva me leva sempre às livrarias, sebos e cafés. Ah, amigos, estou vendo agorinha as livrarias de Buenos Aires, Montevidéu, Montevidéu, Paris. Não, não, livrarias não são empresas que vendem coisas, são santuários. E feliz da cidade que tem bons sebos, o que não é o caso do Recife. No Cabo, onde moro, nem livraria tem, quanto mais sebos.

Para um obsessivo-compulsivo como eu, o sebo é um labirinto mágico a ser desvendado. Todos os autores que estão ali, têm uma sobrevida. Nos sebos, os livros não estão expostos, mas reencarnados. Adoro encontrar uma Clarice Lispector, numa edição dos anos 80, com algum traço sentimental:

“Flávio Pereira, dezembro de 1982”.

Imediatamente penso no Flávio Pereira, quero saber o que ele fazia naquele dezembro de 1982, quando eu tinha meus magros 13 anos, e me recuperava psicologicamente do trauma futebolístico que foi a derrota para a Itália, na Copa que tinha que ser nossa. Me intriga saber que ele deixou a Clarice ir embora de sua biblioteca. Terá morrido? Mudou para o exterior, e não conseguiu levar todos os livros?

Como leitor obsessivo (o compulsivo já está enchendo a paciência), enfrento também meus “incômodos de viagem”, como diz o Fernando Pessoa. Sou capaz de esperar dois, três ônibus, para conseguir um lugar sentado. Não é preguiça ou cansaço, é somente para fazer uma coisa que adoro: ler.

Ah, quantos capítulos maravilhosos, enquanto o Centro do Cabo faz seu percurso tortuoso, da Dantas Barreto até o Cabo, driblando buracos e tumultos da BR 101! Quantos poetas me fizeram companhia, quantos personagens foram mostrando seus dramas, enquanto engarrafamentos e desgovernos nas estradas se acumulavam!

Vez por outra, vem um amigo ou conhecido me informar que ler no ônibus é perigoso, porque pode deslocar a retina. Afirmo com toda a minha sabedoria cósmica, que não é muita: trata-se de uma grande, insustentável e maléfica mentira, dessas que surgem do nada e viram domínio popular. Nunca ouvi falar, não conheço ninguém (e olha que conheço gente pacas), que tenha deslocado a retina lendo no ônibus, por mais buracos que tenha a estrada.

Se for o caso, isso deve ser tratado como um regozijo literário.

“Que tens aí no olho?”

“Rapaz, desloquei a retina à página 317 do Grande Sertão Veredas, quando o Riobaldo olha Diadorim com uns olhos mansos”.

Pelo que sei e entendo da espécie humana, tudo que está deslocado pode ser recolocado no lugar de origem. Então, leio e sempre lerei em carro, ônibus, trem, lotação, avião, navio, em qualquer coisa ou animal que se mova.

Estava terminando este texto, quando uma letora, a Ane, me mandou um trechinho do "Três Cavalos", belíssimo livro do Erri de Luca, que tem tudo a ver:

"(...) cada cópia de livro pode pertencer a muitas vidas e os livros deviam ficar desvigiados nos lugares públicos e deslocar-se junto com os passantes que os levam consigo por um pouco e deveriam morrer como eles, consumidos por doenças, (...) rasgados pelas crianças para fazer barquinhos, em suma deveriam morrer em qualquer lugar a não ser de tédio e de propriedade privada, condenados a uma prateleira pela vida toda".


Amanhã falarei sobre a incrível figura do “conhecido”, aquela pessoa que habita um lugar sentimental incerto, mas que tem um prazer existencial: sentar ao lado do sujeito que é louco por leitura, e puxar um assunto que não vai e nem volta. Depois, comentarei um fato existencial absurdo, que é o peso dos livros, na hora da mudança. A última parte desta minha prosopopéia vai abordar o mundo mágico das bibliotecas da formação de novos leitores. Por último, falarei um pouco sobre minhas mais fantásticas gatunagens literárias, carreira que aposentei há algum tempo.

Postarei em três bocados, para o texto não ficar muito grande e cansar a vista do leitor, ou, num caso mais grave, deslocar a retina.

15 comentários:

Jamesrusso disse...

Sama, sofro desse mesmo problema de adorar ler em ônibus!!! as viagens são sempre entediantes demais e ficar so olhando para o teto é uóo! nada melhor do que ler livros, revistas, jornais...

Samarone Lima disse...

James, cuidado para não deslocar a retina.
Samarone

keila aquino disse...

Sama, esse seu texto narrrando a sua paixão por leitura simplesmente é contagiante! Quem não gosta de ler, no mínimo, fica curioso em saber que tanto prazer é esse que se encontra na leitura.
Achei lindo o "encontro" do leitor com o autor... E a posse do livro, poético mesmo!
Amei ler vc hj. Me fez perceber que ando sem muito tempo pra dedicar a uma boa leitura. Mas me fez tb lembrar que o tempo é uma questão de prioridade e com certeza vou rever as minhas...
Beijo grande pra vc!

Anônimo disse...

Sama, com um bom livro, revista, etc e um aparelhinho chamado MP3, as viagens de ônibus (moro em Olinda) ficam até prazeirosas. Já aconteceu de ficar com pena por ter chegado ao local de destino...
Um abraço do seu amigo anônimo.

Dimas Lins disse...

Sama,

Estou viciado em ler ouvindo música. Tanto que o Estradar faz essa combinação. Belíssimo texto, como sempre.

Um abraço,

Dimas Lins
www.estradar.com

Luisa disse...

Tenho acompanhado seu blog, lido seus textos já há algum tempinho... e agora já faz parte da rotina de minhas navegações. Tenho encontrado muito de mim no que você escreve e isso é sempre reconfortante... como nesse texto de agora. Sinto muito do que você descreveu. Sou também jornalista e me encanta o mundo das palavras. Estava esboçando justamente um texto sobre livros e talvez ainda o faça (www.avessodapalavra.blogger.com.br). PS: sou de Salvador, onde descobri nos seus posts que você já esteve... assim como sei que você mora em Recife, terra boa da família do meu pai, tendo nascido no Crato, local de nascimento também da minha mãe. Enfim, abraços... e continue escrevendo essas ótimas crônicas que me fazem companhias noturnas em momentos de silêncio.

Geórgia Alves disse...

Pô Sama... esculhambou! Deu saudade de tudo. Inclusive do exemplar "Perto do Coração Selvagem", das primeiras tiragens, presente de uma tia minha que é psicóloga.

Deve de ser por tanta mudança... já tô na 15a. casa, desde que sai da chácara cantinho da gente. Tem remédio pra isso, ou só dó maior?

xêro

Renilde Fraga disse...

... eu leio até dentro de "viagem" de elevador... e penso como Borges que diz que o paraíso deve ser uma espécie de biblioteca... e que: "Mas do que escolas, me instruiu uma biblioteca" Beijos, poeta.

Anônimo disse...

Pois é cara, fico a imaginar quantos bons momentos você não passou por todos os seus dias de leitura, mesmo na fase de liso oficial. A leitura nos condiciona a uma agradável forma de viver e, por isso, chego a imaginar que você vive de bem com as letras, com as linhas, os textos, com a própria vida... Lamentável apenas o fato de escolher um lugar para morar onde não se encontra nem livraria. Tudo bem, motivo a mais para correr trás delas. Abraço, Alexandre - o também TRICOLOR!

felipe disse...

Pow, Sama.
Estas histórias, me fazem cada vez mais, querer descobrir o mundo através dos livros, procurando sempre buscar, novas e velhas palavras, que no dia a dia, vivem transformando as nossas vidas.

Que os Deuses da literatura, te iluminem,
hoje e sempre.

Ailton Guerra disse...

Oi, Sama.
Estou sem palavras, é sempre muito bom, poder ler suas crõnicas.

Pois elas ajudam, a compreender a vida de uma maneira mais fáci.

Julio Vila Nova disse...

Sama, domingo passado, no encerramento do Festival Recifense de Literatura, encontrei o Walfrido, que se tornou patrimônio histórico da Livro 7, onde trabalhou por um tempão. É um daqueles vendedores sobre quem você fala numa crônica, com quem a gente podia conversar sobre o resultado do futebol e sobre o melhor caldinho das redondezas. O camarada informa que continua vendendo livros, agora (já há um bom tempo, aliás) no Espaço Pasárgada, na rua da União, onde Tarcisio ficou depois do fechamento da querida Livro 7.

naire valadares disse...

Sama,
Estou com saudade.
Ainda bem que existe o Estuário para eu saber de você. Como sempre, adorei o texto.
Naire

P. disse...

Lembrei de um curta que assisti um dia desses que chama "O Homem-Livro". O filme fala sobre um carioca que ao longo da vida conseguiu amontoar em sua casa, no subúrbio do Rio, mais de 40 mil livros, ele mal consegue andar pela casa. Seu sonho é construir uma biblioteca.

A melhor parte dessa história é que todos os dias ele sai de casa com uma certa quantidade de livros e distribui para as pessoas. Isso reflete bem o trecho do "três cavalos", livro que também gosto muito...

Abraços

Anônimo disse...

Muito bom, camarada! Cheguei por acaso e quase não volto ao trabalho. Já adicionei aos favoritos.
E mais: essa história de deslocamento de retina em leitura no ônibus e afins é mito. Pura lenda urbana. Falo em causa própria.
Valeu, velho. Pepo Melo, aqui de Fortaleza, curtindo a ressaca do Clássico-Rei.