terça-feira, 6 de setembro de 2005

Confissões de um dono de bares

Recife, 06 de de setembro de 2005.

A primeira vez que fui dono de um boteco faz um bom tempo. Eu tinha lá pelos 13, 14 anos, quando meu pai chegou em casa com a novidade: as chaves do bar da esquina, rigorosamente defronte à nossa casa, onde se reunia a velha guarda do Monte Castelo, em Fortaleza. Meu pai tinha tomado umas garapas a mais e o dono do bar também. O dono do bar estava reclamando do cansaço, meu pai tinha uma graninha no bolso e disse:

“Eu compro”.

Fizeram o negócio de fogo mesmo. Os dois se arrependeram no dia seguinte, creio, mas a palavra já tinha sido dada, e essas coisas no Nordeste valem muito. Lá fui eu, junto com meus dois irmãos, Tonho e Paulo, tomar conta do negócio. Não lembro o nome do bar e não tenho certeza se o Paulo estava no meio da confusão, porque teve uma época em que ele acreditou que seria mesmo um padre, e se meteu no seminário de Carpina. Bem, era o bar da esquina, e está bom, ora bolas, nem tudo precisa ter nome e pompa.

Eu adorava a velha guarda, especialmente a que se reunia aos sábados, com violão e microfone, para repassar as músicas das antigas, esse negócio singelo que atende pelo nome de boemia. Eu não sou um boêmio por falta de resistência, apenas amante da boemia. Para mim, Lupicinio já disse tudo sobre a alma humana.

Não sei quanto tempo durou o bar. Sei que me diverti muito, e que meu pai reclamava muito dos fiados que a gente deixava a turma anotar. Quero saber qual a criatura com 13, 14 anos, vai botar moral na questão bíblica dos fiados.

O segundo bar veio ao acaso, e batizei-o de La Prensa. Meu deus, o negócio pegou mesmo, tinha dia que eu olhava e pensava:

“O que esse povo todo está fazendo aqui?”

Um dia, voltando de viagem, em pleno domingo, vi uma fila enorme de gente esperando a vez para entrar no bar. Fila para entrar num bar em pleno domingo à noite! Acompanhei o La Prensa durante dois anos, depois segui meu caminho. Muitas coisas bonitas aconteceram ali, naquela famosa esquina da 17 de Agosto.

Agora estou no terceiro bar, o Garraffus. Entrei na sociedade com meu irmão, mas avisei que iria só dar uma ajudinha, até o bar “pegar”, porque o bar era dele. Aconteceu um movimento contraditório - o bar pegou e meu irmão voltou para Fortaleza, com sua família. Há uns três meses, voltei a ser dono de bar. Dono mesmo, de ficar acompanhando o movimento, conferindo contas, resolvendo broncas. Eu, e os “sócios emergenciais”: Professor Davi, Ana, Teresinha e Nana, cada um mais ocupado que o outro.

O bar está ótimo, tem uma clientela maravilhosa, não há tanto fiado assim e há casos patéticos de gente que vem no dia seguinte, porque se lembrou que saiu sem pagar a conta. Chiló, o sanfoneiro coral, outro dia foi pagar uns atrasados, e quando mostramos as contas, ele fechou a cara:

“Tenho certeza que não é só isso!”

Insistimos que era só aquilo mesmo, mas ele bateu o pé:

“Podem procurar, que só saio daqui se pagar tudo!”.

Fez uma confusão dos diabos, ameaçou nunca mais voltar, quis me chamar de mau caráter, disse que tinha separado a quantia certa para pagara os penduras, até que encontramos três contas antigas no fundo do baú. Só então Chiló voltou a sorrir. Como botamos cerveja grande, temos a graça de nunca receber reclamação de João Valadares, aquele infame que odeia long neck (quem não odeia?). Álvaro Claudino, por sua vez, parou com o famoso bordão:

“Cerveja quente de novo!”

É, as coisas vão bem, obrigado, é tudo bacana, é bom ver tanta gente legal se divertindo, namorando, chorando suas mágoas, conversando, comemorando aniversários, fazendo festas para receber amigos, para dar adeus aos que partem, mas vai aqui o anúncio – cansei.

Sim, amigos, cansei mesmo. Está na hora de passar o ponto para alguém que tenha tempo e disposição para tanto movimento, um homem de negócios. Eu não sou homem de negócios, assumo. Quero é ficar no meu canto, escrever minhas besteirinhas, ler as belezas que tanta gente anda produzindo, assistir mais filmes. Quero ir ao teatro, ver o que andam produzindo outros artistas. Perdi um show do Erastos Vasconcelos, no domingo passado, por puro cansaço. Me dá um remorso no coração quando vejo aqui o “Viagem Terrível”, do Robert Arlt, esperando para ser relido pela terceira vez, e não consigo. Até outros bares preciso conhecer. Meu circuito tem se limitado ao lendário Empório Sertanejo, quando agüento, e a Seu Vital, aqui do Poço, porque dou um passo, e estou lá dentro.

A noite me dá um ótimo material para crônicas, mas quem disse que eu vivo para escrever crônicas? Elas são fruto da vida. Seria mesmo patético o sujeito viver para escrever, como se a vida fosse decifrável. No meu caso, eu primeiro vivo, depois escrevo. No final das contas, tudo pode ser tema de crônica.

No último domingo, percebi o tamanho do problema existencial. Nosso time da pelada aqui do Poço, o “Caducos Futebol Clube” foi jogar uma partida contra o glorioso selecionado de Santana, do bairro de Santana, perdão pela redundância. Fui escalado para a defesa, possivelmente com Batman na lateral esquerda e Egildo ciscando pela direita. Acordei às 7h e voltei a dormir, exausto. Perdi o jogo do nosso clube azul e branco, e a chance de me firmar como titular. Não procurei saber ainda o resultado do jogo, mas se tivermos perdido de 1 x 0, assumo a culpa. Foi falha minha, eu que não travei a bola com o artilheiro adversário, na hora do chute. Isso dói, meus amigos, dói quase tanto quanto uma derrota do Santinha.

Quero ficar do lado de cá do balcão, tomando uma cervejinha sem me preocupar com o garçom cutucando a cada cinco minutos:

“O cliente pediu para tirar um couvert, porque a namorada chegou agora”.

Bem, se algum homem ou mulher da noite andar lendo essas minhas crônicas miúdas, pode entrar em contato, para a famosa cerimônia da “venda do ponto”. É só mandar um comentário neste blog, que chega ao meu email. Cansei mesmo. Diria que estou exausto.

Alguns vão dizer que sou doido, que não gosto de ganhar dinheiro, essa lorota toda.

Então eu vou de Roberto Juarroz, poeta argentino:

“Meu objetivo é sentir que estou vivendo aquilo que devo viver”.


Ps. Nesta quarta, tem a famosa roda de samba, além do aniversário de Silvinha. Nos vemos.

2 comentários:

Adri disse...

Compreendo, Saminha. Tenho mesmo a sensação de que você queria mais é ficar de papo, anotando umas coisinhas, trocando umas figurinhas, cada vez que o vejo passar 'ao largo', cuidando do funcionamento do maravilhoso Garraffus. Combinamos assim: você deixa o bar, eu não. Não posso mais. Conhecerei a roda de samba amanhã. Acho que vou gostar. Sucesso na transação da venda!
Cheiro.

Sonia disse...

E eu já ia pensando, se algum dia eu for a Recife vou conhecer o Garrafus... e já vai ser vendido. Faz mal não, logo, logo você abre outro, que não é doido de abandonar essa fonte de causos.
Bom projeto esse de reler o Arlt.