quinta-feira, 22 de setembro de 2005

A pessoa que a gente ama parece com a cidade que a gente ama

Recife, 22 de setembro de 2005.

A pessoa que a gente ama parece com a cidade que a gente ama, mesmo que ela esteja longe. Fica sempre a lembrança do cheiro, dos contornos, dos lugares ocultos, das belezas sutis, da cor, uma forma de gozo que atravessa a alma. Fica a lembrança também do cansaço, a memória dos lugares destruídos, as feridas, as mazelas, sofrimentos silenciosos que os habitantes de uma cidade e os habitantes de um amor compartilham, mesmo que na penumbra.

Sim, porque o amor não é algo que se vive, tão simplesmente. Creio que a gente também habita o amor, como se habita uma cidade. Um coração é feito de ruas jamais alcançadas, lugares ermos, silêncios, descobertas, mergulhos íntimos nas águas e reentrâncias, nos mamilos e na carne, no suor e no êxtase. Todo coração é uma pátria, do tamanho de nossa cidade mais íntima. A minha cidade mais íntima é o Recife.

Um amor começa, portanto, pelo Poço da Panela, que é o coração da cidade que amo. Daqui a muitos anos, a paisagem do Poço será a mesma, os casarões serão os mesmos, as ruas de pedra serão as mesmas, somente as pessoas não serão as mesmas.

A invasão humana, por aqui, segue seu ritmo de rostos que chegam e olhares que partem. Mas os homens, em seu capricho, ergueram casarões e pavimentaram ruas com as pedras do tempo. A beleza protege a si própria, numa espécie de tratado estético que alcança os homens. A aproximação por aqui é lenta, como a chegada das manhãs ou a partida das tardes, coisa que acontece com os amores. E um coração, a exemplo deste pequeno ponto no Recife, é algo que exige cuidado, aproximação cheia de ternura. Os amores que nascem lentos criam raízes mais fundas, creio.

É como um coração de cada um, com sua imensa história, suas pedras irregulares, sua esperança sempre vencida de se manter intacto.

O tempo transforma tudo mesmo. Um músculo que empurra o sangue se transforma, ao longo da vida, em sentimento. E o que pulsa não bombeia somente o sangue, bombeia a vida, no que há de mais sublime. Então o meu amor é um poço artesiano também, com sua água cristalina saciando as sedes das tantas fontes que errei, dos amores que me perdi.

E meu amor é um pouco dos mercados da minha cidade, onde estão os cheiros, as vozes, as vísceras, o pão, o gozo e a festa. Se o Poço é o coração da cidade que amo, os mercados são como o sexo e as entranhas, o êxtase com o alarido dos que bebem e celebram, com as carnes, os frutos, a intensa demografia dos que circulam, sempre buscando algo para completar a eterna falta.

Ninguém vai a um mercado impunemente. Ninguém vai à procura de um simples abastecimento, que não seja um abastecimento afetivo. Mais que o pão, mais que a cachaça com um caldo, busca-se imagens, sons, cores, encontros. Sempre há uma esperança silenciosa de ficar mais um pouco, por conta de uma derradeira cerveja, alongando a tarefa sutil das compras, a desculpa para uma festa dos desejos.

Um amor deve ter doses iguais do universo inexplicável dos mercados da Madalena, da Encruzilhada, São José, os temperos do mercado da Boa Vista, a maciez selvagem e clara, muito clara, do mercado de Casa Amarela, onde circulam tantas criaturas, onde a vida parece mais afoita, onde escutei certa vez um suspiro de um homem ao ver uma linda morena passar, e dizer - “ai, essas mulheres de Casa Amarela...”

As coxas e pernas de um amor devem ser longas artérias que cruzamos para sobreviver. Então, o amor caminha comigo na Conde da Boa Vista, rui Barbosa, Rosa e Silva, 17 de Agosto, Estrada do Arraial, e vamos caminhando para o norte do Recife, levando por dentro a impressão de chegar sempre a algum lugar recém-descoberto, como é o corpo de quem se ama.

Os olhos do amor devem resplandecem na rua da Aurora, com suas casas coloridas que se refletem na lâmina espelhada do rio, e uma aurora é tudo que preciso para seguir a cada dia.

Os longos braços de quem se ama de verdade, ou de quem amo de verdade, bem que poderiam ser os dois lados da avenida Agamenon Magalhães, que levam a Olinda, em um extremo, e à praia de Boa Viagem, no outro. Os braços de quem se ama levariam, portanto, a belezas extremas, onde estariam gravadas as ladeiras de Olinda, sempre por percorrer, ou o mar, para a eterna dissolução.

Mas é tudo mais simples e menos grandioso. Os braços que vejo e sinto são caminhos aquietados no rumo do Horto de Dois Irmãos, repletos de árvores e sementes, porque os braços do amor são repletos de folhas e sombras e germinam a cada dia.

A velhice do meu amor resvala no Bairro do Recife, talhado em minha memória desde o primeiro encontro. Cada prédio abandonado, cada ruína, é uma tábua rangendo sob os meus pés fatigados, moídos de tanto caminhar. E depois da última ponte, quando há o mar, e somente o mar, então anoiteço lentamente, deixando as certezas em terra firme, levando comigo, talhado nas mãos, a textura das mãos de quem amo e contemplo. Sim, porque o amor é algo que se contempla.

O jeito de quem se ama, a sua forma de andar pelo mundo, de falar o que acalma, ou de silenciar alimentando, tem este jeito do Recife de existir, uma cidade que entrou pelos meus poros, se enraizou em meus tendões, cresceu lentamente em meus ossos, desde o primeiro dia. E o jeito tem muito dos altos da cidade, especialmente o Alto José do Pinho, repleto de sorrisos e cores, um interminável movimento em sua grande rua principal, como a dizer que o amor é mais simples, é a respiração em comum, a transpiração dos que se encaixam espontaneamente, e não precisam se explicar, apenas caminham juntos, sorrindo.

E como um homem que se declara à mulher que ama, embora não esteja ao seu redor, fazendo-se cativo de sua trajetória, cúmplice de seus desejos, é necessário redescobrir o amor, como quem redescobre a cada dia sua cidade, refazendo o mapa interminável das ruas recém-criadas, das árvores que começaram a crescer, enquanto outras tombaram por descuido, enquanto o sol inunda as janelas de todas as casas.

É necessário aceitar que algo no amor desvenda, acolhe e prepara para a felicidade, tal como faz uma cidade, como fizeram algumas criaturas nesta minha pequena jornada, e como me faz o Recife, a cada dia.

Porque a pessoa que a gente ama parece com a cidade que a gente ama. E amar alguém com a cara do Recife é chamar esta pessoa de bela a cada aurora, é chamá-la de intensa e interminável, sempre pronta para ser desvendada, percorrida, reinventada, como deve ser o amor a cada dia.

18 comentários:

Riva Spinelli disse...

É isso mesmo SamaLima, e não adianta querer mudar de cidade, porque a saudade será mais sentida, mais aguda e contundente a cada dia, exatamente como a saudade do grande e verdadeiro amor que, como a cidade é único!

Priscila disse...

Puxa Samarone... A cada dia você fica melhor! Impressionante... Linda crônica! Quando voltei de viagem, agora no final de julho, o primeiro livro que decidi ler foi "Cidades Invisíveis" do Ítalo Calvino e a primeira coisa que pensei, quando comecei a ler o livro, foi como descreveria as cidades que já visitei...
O que eu posso te dizer, é que a tua crônica de hoje, ficou com a cara de um capítulo daquele livro, mas é claro, com muito Samarone dentro..., não Calvino - e isso é um mérito! Parabéns! Linda comparação! Abraços, Priscila

Elton Pinheiro disse...

Que texto ótimo, lindo...

"Creio que a gente também habita o amor, como se habita uma cidade."

... existem outras frases tão belas assim dentro dele... o pedaço do Horto, dos Dois Irmãos... ótimo.

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Elton Pinheiro disse...
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Mariana disse...

Valeu a pena esperar dois dias... Lindo, lindo. Cada dia gosto mais do seu texto e da sua alma. Um beijo!

Anônimo disse...

.... encantada cada dia mais pela tua alma,poxa!!! pq!? sempre quase choro!!!! adorei sua façanha do cine, espero que leia meu comentário,uma frasezinha bem brega para quebrar o clima " não é novela mais te acompanho," ou melhor te visito quase todos os dias !!!!

bjo

Anônimo disse...

simplesmente lindo, samarone. eugenia

fabiana disse...

Sama,
assim meio plagiando o Drummond te digo: "tens apenas duas maos, mas todo o sentimento do mundo."
beijos, querido.

Anna disse...

Sama, meu filho, esse seu texto (lindo como sempre!) lembra "O cão sem plumas" de João Cabral de Melo Neto. Não que você tenha plagiado (você não precisa disso!) mas algumas figuras me trouxeram à memória aquele poema. Tenho notado que o exercício da escrita aprimora cada vez mais o estilo. Só não sei aonde você vai parar, com tanta beleza escrita nesse maravilhoso "Estuário". Continue assim, brilhando cada vez mais!
Um cheiro.

Andreia Santos disse...

Simplesmente LINDO! Adorei.
Bjs,
Andreia

Gustavo disse...

AS CIDADES E AS TROCAS

Ao entrar no território que tem Eutrópia como capital, o viajante não vê uma mas muitas
cidades, todas do mesmo tamanho e não dessemelhantes entre si, espalhadas por um vasto
e ondulado planalto.
Eutrópia não é apenas uma dessas cidades mas todas juntas; somente uma é habitada, as
outras são desertas; e isso se dá por turnos. Explico de que maneira.
No dia em que os habitantes de Eutrópia se sentem acometidos pelo tédio e ninguém mais
suporta o próprio trabalho, os parentes, a casa e a rua, os débitos, as pessoas que devem
cumprimentar ou que os cumprimentam, nesse momento todos os cidadãos decidem
deslocar-se para a cidade vizinha que está ali à espera, vazia e como se fosse nova, onde
cada um escolherá um outro trabalho, uma outra mulher, verá outras paisagens ao abrir as
janelas, passará as noites com outros passatempos, amizades, impropérios.
Assim as suas vidas se renovam de mudança em mudança, através de cidades que pela
exposicão ou pela pendência ou pelos cursos de água ou pelos ventos apresentam-se com
alguma diferença entre si.
Uma vez que a sua sociedade é organizada sem grandes diferenças de riqueza ou de
autoridade, as passagens de uma função para a outra ocorrem quase sem atritos; a
variedade é assegurada pelas múltiplas incumbências, tantas que no espaço de uma vida
raramente retornam para um trabalho que já lhes pertenceu.
Deste modo a cidade repete uma vida idêntica deslocando-se para cima e para baixo em seu
tabuleiro vazio. Os habitantes voltam a recitar as mesmas cenas com atores diferentes,
contam as mesmas anedotas com diferentes combinações de palavras; escancaram as bocas
alternadamente com bocejos iguais.
Única entre todas as cidades do império, Eutrópia permanece idêntica a si mesma.
Mercúrio, deus dos volúveis, patrono da cidade, cumpriu esse ambíguo milagre.

(As Cidades Invisíveis - Italo Calvino

Anônimo disse...

Para leer en forma interrogativa

Has visto
verdaderamente has visto
la nieve los astros los pasos afelpados de la brisa
Has tocado
de verdad has tocado
el plato el pan la cara de esa mujer que tanto amàs
Has vivido
como un golpe en la frente
el instante el jadeo la caìda la fuga
Has sabido
con cada poro de la piel sabido
que tus ojos tus manos tu sexo tu blando corazòn
habìa que tirarlos
habìa que llorarlos
habìa que inventarlos otra vez.

para o menino e seu burrinho

Adri disse...

A aproximação por aí é lenta...
Bom fim de semana, Poeta.

Adriana(amiga da Adri) disse...

Sem comentários, vc realmente se supera a cada dia!!!Demais!!
Um grande abraço!

Sonia disse...

Mais um texto delicisoso. Sempre vale a pena passar por aqui. Quisera eu falar assim deste Rio que eu amo.

Keila Aquino disse...

Já disse uma vez para vc, Samarone, através de e-mail: Vc é sentimento e amor em forma de gente!
O texto não necessita de comentários... mas me despertou um desejo enorme de sentir esse amor que vc relatou em toda sua plenitude! Quem sabe... um dia!
Grande beijo no seu coração, Poeta!

Anônimo disse...

Samarone,

Dessa vez nâo aguentei ficar calada, preciso te dizer: você é demais!

Marta

Anônimo disse...

Jane disse...
Amo Recife , mais ainda Olinda
e elas não parecem com quem amo.