segunda-feira, 17 de abril de 2006

As muitas vidas de um revolucionário

Conheci Ricardo Zarattini Filho em 1993, quando eu tinha 23 anos e começava a suar naquelas velhas escadas de madeira do Diário de Pernambuco, em busca de uma boa reportagem. De tarde, estágio na redação, de noite, curso de Jornalismo na Católica, com escalas obrigatórias na lendária Cristal, ali na rua do Imperador, com Otávio de Souza, Toscano, o velho Zé Maria etc. Bons tempos aqueles.

Eu penava para concluir o curso, e escolhi como pauta para a série de reportagens, o famoso "projeto experimental", o mistério que sempre envolveu o atentado a bomba no Aeroporto dos Guararapes, em 1966. Dois engenheiros foram presos em 1968 e acusados de terem planejado e colocado a bomba, que resultou em duas mortes e muitos feridos: Edinaldo Miranda de Oliveira e Ricardo Zarattini Filho. Os dois sempre negaram a autoria da ação, mas quem fez mesmo o atentado, uma turma da Ação Popular (AP), que jamais assumiu publicamente a autoria, mesmo com a democratização do País.

O fato é que somente agora, 13 anos depois, estou conseguindo terminar aquela pesquisa, no formato de um livro. Neste intervalo, a Cristal virou uma lanchonete moderna e horrível, o saudoso Edinaldo morreu, Zarattini se elegeu Deputado Federal (PT-SP), venceu um câncer e fomos nos tornando amigos. Em 1995, o Jornal do Commercio publicou uma série de reportagens, mostrando que os dois engenheiros eram realmente inocentes, e finalmente foi feita uma pequena justiça sobre o episódio. Falo “pequena justiça", porque o que eles sofreram nas mãos da repressão, é impagável.

Consegui às duras penas uma entrevista com Zarattini, quando eu morava em São Paulo. Foi aquela conversa meio truncada, em meio ao aniversário de uma das netas. Zarattini, com toda a razão, nunca simpatizou muito com nossa raça. Grande parte das matérias publicadas sobre ele, citavam indevidamente a história do Guararapes. Desconfio que ele também me achava moço demais para escrever sobre a vida dele. Concordo.

Outro dia, fiquei sabendo por Amparo, do Movimento Tortura Nunca Mais, que o velho combatente estava dando uma série de entrevistas a um jornalista, que vive há muito tempo na Itália. Me bateu uma dor de cotovelo dos diabos, mas a vida é assim mesmo, é preciso aceitar.

Zarattini me ligou recentemente, para falar do livro que vai ser lançado hoje, na Livraria Cultura. Sábado, fui correndo comprar a jóia, que se chama “Zarattini: a paixão revolucionária”, do jornalista José Luiz Del Roio (Editora Ícone).

Foi a leitura do sábado à tarde, entrando pela noite. Ao final da leitura, a impressão que me deu foi na verdade uma certeza que tenho há muitos anos – há pessoas que vivem demais, que têm várias vidas dentro de uma mesma vida. Uma delas é o Ricardo Zarattini.

Desde a campanha do “Petróleo é Nosso”, com 17 anos, ele já estava lutando por suas idéias, quando foi preso a primeira vez. Outras prisões vieram, após o golpe de 1964. Vieram também as torturas, morte de amigos e outros arrebentamentos, até que foi incluído na lista dos presos que foram trocados pelo embaixador norte-americano, em 1969. Esteve no México, mas queria mesmo era derrubar a ditadura. Foi para Cuba, depois saiu pela Coréia, China, Moscou, enfim.

Estava no Chile quando chegou outro golpe, o de Pinochet, e tratou de ajudar a salvar algumas vidas, encaminhando-as para embaixadas. Por último, salvou a própria pela e foi para o exílio.

Retornou ao Brasil em maio de 1974, com passaporte falso de nacionalidade italiana. Como bem diz o livro, “todos estavam mais velhos e profundamente marcados no corpo e no espírito e, sobretudo, faltavam aqueles que haviam caído na luta”. A última prisão foi em maio de 1978, quando já se pronunciava a palavra Anistia, para permitir a volta do irmão do Henfil, e tanta gente que partiu, como disseram os poetas...

Em 28 de agosto de 1979, foi finalmente sancionada a Anistia. Os exilados voltaram e os presos políticos foram finalmente libertados. Um deles era Zarattini. “Como seus companheiros, tinha os cabelos enbranquecidos e o rosto marcado de rugas”.

Ao sair da prisão, encontrou a filha Mônica, que estava com 17 anos, junto com familiares, amigos e companheiros. Apoiou-se na filha e mancando, disse:

“Dói, filha, dói esta perna. Mas vamos lá, ainda há tanto o que fazer!”

Essa frase é a cara dele.

O incansável Zarattini estará na Livraria Cultura, a partir das 19h de hoje, falando sobre sua paixão revolucionária. Por arte do destino, fui convidado para participar da mesa-redonda. Neste caso, usarei uma pequena dose de prudência. Falarei pouco e escutarei muito. Há muitas vidas dentro daquela alma, que vergou muitas vezes mas nunca quebrou. É preciso escutar com reverência.

O autor do livro estará presente.

Na ocasião, falarei diretamente da minha profunda inveja.

**
Serviço
Lançamento do livro “Zarattini: a paixão revolucionária”
Local: Livraria Cultura
Data: 18/04
Horário: 19h
Preço do livro: R$ 27,00

3 comentários:

Claudia disse...

"Há muitas vidas dentro daquela alma, que vergou muitas vezes mas nunca quebrou."

Fale essa frase para ele e aposto que ganharás a entrevista.

Anônimo disse...

Samarone,

Fizeram vc e jogaram a fórmula fora, não conheço outro com a sua simplicidade e sensibilidade.
Com "afecto".
Naire

Karyna disse...

Sama,

Tem problema, não, meu amigo. Já vieram (e ainda virão!) tantos ricos livros da sua escrita...
Deixa um tiquinho pros outros também.

Xêro no coração,