segunda-feira, 29 de maio de 2006

Breve relato de inaugurações

Lembro de muitas inaugurações em minha vida. O primeiro livro que me emocionou, a primeira viagem sozinho, para outro estado, o primeiro trabalho como jornalista profissional, o primeiro amor, a primeira viagem para o exterior. Inaugurações que continuam pela vida, sempre em mutação. A primeira aula na Universidade, a primeira crônica, a primeira aula no mestrado, a primeira cana com o melhor amigo, a primeira faixa de campeão do meu time, enfim.

E na semana passada, presenciei a inauguração de vários alunos, que caminham comigo na Oficina da Palavra, na escola Kabum!, onde estou ensinando. Gosto muito cada vez mais disso: minha profissão agora é educador. A inauguração foi simples - fomos juntos à Livraria Cultura, aqui perto. Fomos caminhando, olhando os prédios do Bairro do Recife.

No caminho, esbarramos na bela exposição do Romero de Andrade Lima, no Espaço da Alfândega, homenageando 30 escritores. Os alunos olharam tudo com atenção e seguiram para a livraria. Quase nenhum deles tinha entrado naquele espaço. Olharam tudo, leram trechos de livros, vieram tirar dúvidas. Hoje, fui com o restante dos alunos, todos na faixa dos 16 aos 19 anos, moradores de bairros da periferia, aqui do Recife.

Fiquei lá em cima, bebericando um café, enquanto eles se espalhavam pelos espaços da Cultura. O que me encantou foi simples - ver muitos deles sentados nos duros sofás da livraria (acho que os sofás da Cultura dizem o seguinte: "podem ler os livros, mas aqui você não agüenta ficar muito tempo") - , absortos em leituras, fazendo anotações, perguntando preços. Uma hora de vivência com o universo dos livros.

Na volta, um deles veio me contar, com uma alegria sincera, um conto dos Irmãos Grimm, que acabara de ler. Foi falando do texto, foi me contando a história em detalhes, enquanto atravessávamos o Bairro do Recife. Estava eufórico. Chegamos à escola, e ele ainda não tinha terminado. Vai contar o restante depois. Outra aluna contou que está lendo um livro aos pouquinhos, com visitas diárias à Cultura. Ela vai, lê um capítulo e depois segue para casa. Veio me perguntar o que é "psicologia evolutiva", mas, apesar de ter muita gente de psicologia por perto, não sei o que é. Prometi resolver a questão na próxima aula. Aceito ajudas on line.

Então lembrei de uma história, acho que quem me contou foi o Inácio, se não foi, fica sendo. Dizem que Tarcísio, da gloriosa Livro 7, ficou sabendo que uma pessoa ía todos os dias, pegava um livro, lia, marcava e deixava escondido.Era, de certa forma, o "seu" livro, mesmo sem tê-lo comprado. O vendedor percebeu e avisou, mas Tarcísio disse que deixasse como estava. A pessoa leu o livro inteiro, em pequenos goles de alegria, em encontros silenciosos, certamente num temor contido de que o livro fosse vendido, e seus encontros terminasse. Ao final, Tarcísio deu o livro de presente, creio, não sei exatamente se deu, mas está dado, é a minha licença poética, quando a gente escreve, pode mudar o passado também.

Voltamos para a escola, eles me falaram da visita, dos livros, daquela inauguração. A alegria espantada era geral. "Dá vontade de levar todos os livros, professor", disse um aluno, repetindo a mesma vontade que tenho.

Uma aluna se encantou com um livro do Carlos Drummond, onde citava o Fernando Pessoa. Aproveitou a visita para copiar o poema inteiro. Tímida, não quis ler para a turma. Espero que esses alunos se encantem com o mundo da literatura, e façam seus vôos.

Lembro que cheguei ao Recife, em 1987, e trazia poucas coisas para começar a vida. Uma bolsa com as roupas e uma caixa, com meus livros fundamentais. Sem eles, eu não sairia de Fortaleza. Aliás, sairia sim, porque tenho uma alma de andarilho, mas ficaria capengando pela vida, até reencontrá-los. Percebi agora, escrevendo esta crônica, que isso foi há 18 anos, naquele intenso mês de julho. Por sorte do destino, fui morar em Casa Amarela, bairro popular e misturado, populoso e intenso. Definitivamente, sou um homem da Zona Norte do Recife, mas acho que isso não tem nada a ver com a crônica de hoje, que fala de inaugurações, estou misturando os assuntos, melhor parar por aqui.

18 comentários:

fabiana disse...

muito bonito seu trabalho, me deixa bastante feliz.

Anônimo disse...

porra !!!

Anônimo disse...

Parabéns. Lembro da sua primeira cronica, quando iniciou este projeto, falando da carencia de livros dos seus alunos.

Inácio Franca/Samarone Lima disse...

Fui eu quem lhe contei a história de Tarcísio Sete. Também não sei se ele deu o livro pro cara, que era um estudante de escola pública. Parece que o livro era Crime e Castigo, de Dostoeivski.

Suy disse...

Por que vc não leva os meninos na biblioteca pública? Melhor porque podem ficar mais a vontade e lerem o tempo que quiserem, e, ainda podem retirar os livros depois de se cadastrarem. Abçs!!!

Anônimo disse...

Sama, ir além da sala de aula é um exercício de compromisso com os outros. Estar satisfeito com o trabalho é o combustível necessário. Até já. PH, o mano em BH

samarone disse...

Suy,
vou levar a bibliotecas públicas sim, é só o começo. No final, quero ir até a Biblioteca Nacional, se conseguirmos as passagens.
inté mais,
samarone

paulinho, seu pilantra, mande um email decente.

Julio Vila Nova disse...

Parabéns, Samarone! Esses meninos e meninas vão te agradecer a vida inteira por esse encontro com os livros. Aproveito pra te dizer que, dia desses, levei para meus alunos do 1º ano do turno da noite aqui no Janga a tua crônica "O futebol e a vida". Lemos em sala e o resultado foi muito bom.

Sonia disse...

Dizem que o povo não gosta de ler. Como poderia gostar se não tem quem o apresente aos livros? Infelizmente faltam bibliotecas nos bairros, e professores que apresentem os livros como um prazer, não como um dever de casa pra tirar nota.

Cadú disse...

Isso que a Sonia falou é muito importante! Precisamos apresentar os livros como uma descoberta a novos mundos.. Mas o que gostie mesmo foi o fato de perceber que vc Samarone é um cara que gosta do que faz.. Isso é legal! Parabens!

Anna disse...

Sama, meu filho! Quanto tempo não lhe falo, né? Seu trabalho na Oficina da Palavra assemelha-se ao meu no Pro Jovem. Sendo professora de Ciências Naturais, misturo as teorias científicas com poesias e literatura e teatro. O resultado é esplendoroso. Semana passada levei um texto sobre amizade para meus alunos representarem em desenho e quase choro de emoção. O que falta a esses jovens é oportunidade de se expressarem. Imagine que um deles fez uma história em quadrinhos, com balõezinhos de falas, com explicações nas mudanças de cenas e fechou a historinha dizendo que "amizade verdadeira se leva a vida inteira". É muito prazeroso poder levar ao conhecimento dos jovens dos morros esse direito que eles têm e não sabem. E eles viajam nas leituras. Sem lhe pedir permissão, de vez em quando levo seus textos para iniciar as aulas com paixão e emoção. Eles adoram. Parabéns, menino! Acho que por esse caminho ainda é possível recuperar muita coisa boa que o povo tem.
Um cheiro, de mãe.

Anônimo disse...

Oi, Samarone!
Que linda essa inauguracao de seus alunos!
Parabéns!
Obrigada por mais esta linda cronica!
abracos,
Claudia

Sonia disse...

Voltei porque acho relevante contar o que ouvi certa vez em um encontro promovido pela Secretaria Municipal de Educação. Uma professora falou de sua experiência como professora voluntária de literatura e redação para jovens de baixa renda. Sem saber como começar, pediu na primeira aula que os alunos escrevessem, sem se preocupar com erros, algo sobre eles mesmos que quisessem contar a ela, professora. Foi inundada com textos de 4, 5, 6 páginas, em que os jovens falavam de sua realidade de vida, da violência em seu meio e da desagregação familiar. Ao comentar em aula os trabalhos, a professora falou de autores que haviam tratado desses temas, e de como eles o haviam feito. O interesse por essas obras foi imediato, os alunos jamais haviam imaginado que vidas como as suas fossem assunto em livros. E, para surpresa da professora, criou-se entre esses jovens, que todos consideram incapazes de interesse pela literatura, uma febre de ler e escrever, pois descobriram que literatura fala de vida, inclusive de vidas difí­ceis como as deles.

Anônimo disse...

Vou eu quem li o crime e castigo na livro 7. Ganhei de fato o livro de presente.

Laís disse...

Acabo de ler a crônica que você fez.. de fato..
gostei muito..
acho que o mundo da leitura é muito gostoso
pois mesmo sem sair do canto você pode viajar para lugares inemagináveis..

Rosário disse...

Belo exemplo de vida, Samarone !
Você entrou de forma grandiosa na vida destes adolescentes.
Parabéns !

Anônimo disse...

Sama , sou solidária a vc. Tenho a maior dificuldade de ler Crime e Castigo.Toda vez que tento tenho que recomeçar. Mas um dia conseguirei!!!!!Tenho uma amiga que quando fala do livro deixa a gente com inveja de não ter conseguido ainda ter esse olhar nas diversas tentativas.....
Beijos e boa sorte.Ana

Anônimo disse...

This site is one of the best I have ever seen, wish I had one like this.
»