quarta-feira, 31 de maio de 2006

Crime e Castigo na Livro 7, uma história de paixão pelos livros e lembranças que se encontram

Aconteceu algo incrível, na crônica anterior. Citei assim, de orelha, en passent, como dizem os franceses, um caso que Inácio França, meu dileto amigo, tinha contado. Era a história de um sujeito que ía à Livro 7, diariamente, lia um pedaço de um livro, deixava marcado e escondidinho, e no dia seguinte voltava. O dono da livraria, Tarcísio, ficou sabendo, orientou o vendedor a não importunar o leitor, e quando o rapaz terminou tudo, ganhou o livro de presente.

Pois bem. Eu não lembrava quem tinha me contado a história. Inácio me respondeu que foi ele mesmo. Por sua vez, Inácio não lembrava exatamente o nome do livro. Chutou o Crime e Castigo, do Dostoievsky, porque Inácio é o único amigo que conheço, que já leu Crime e Castigo inteiro, do crime ao castigo. Acho que Gustavo também leu, mas não tenho certeza, porque o velho potiguar anda mais caindo para o lado da poesia.

Pois bem de novo. Nos comentários dos meus poucos mas fiéis leitores, um sujeito disse apenas o seguinte:

“Sou eu quem li o Crime e Castigo na Livro 7. Ganhei de fato o livro de presente”

Acontece, meu amigo leitor, que isso não se faz. O comentário vem como “anônimo” (aliás, não sei porque cargas d’água, quase todos os comentários do meu blog vêm como “anônimo, eu não posso nem responder ou interagir com as pessoas). Meu amigo, por favor me mande um comentário com seu email, porque não é todo dia que a gente encontra um sujeito que leu Crime e Castigo, em pequenas goladas, no banco duro de uma livraria no centro do Recife, e ainda ganha o livro de presente do dono do estabelecimento.

Imagino sua liseira naquele período, seu amor aos livros, sua paciência, para ir diariamente (ou três vezes por semana, Inácio não me contou os detalhes). Como ficaria você, espiritualmente, psicologicamente, afetivamente, se chegasse por lá e o livro tivesse sido vendido? O que você teria feito da vida? Teria buscado outro Dostiévsky? Teria partido para outro russo, como o Maiakóvsky? Não, não, Maiakóvsky é poeta, sua praia parece ser o romance mesmo, e o romance denso. Teria passado para o Tchekov, Mandelstam ou Puchkin? Teria ficado amargurado, encheria a cara com aguardente barata, limão e espetinhos de caráter duvidosos? São muitas as minhas dúvidas, amigo, por favor não me mate de curiosidade.

Falo isso porque, dependendo do período, poderemos até ter nos esbarrado em meio aos labirintos de madeira da famosa livraria. Será que cheguei a folhear o seu livro? A sorte, amigo, é que nesta época, eu vivia num estado de liseira crônica, e o "seu" livro é um tijolão. Roubar Crime e Castigo, na minha opinião, já é muita cara de pau.

Acabei de pegar o meu exemplar de Crime e Castigo, comprado em fevereiro de 2002. Aqui vai uma confissão: parei na página 145. Estou até envergonhado por não ter encarado de frente um dos clássicos da literatura mundial. Você e Inácio me perdoem pela fraqueza, meu amigo. Às vezes, é preciso um pouco de raça, perseverança, para chegar ao deslumbramento de uma grande obra de arte. Fui realmente um reles leitor vagabundo. Como dizem os jogadores, ao perder um gol feito, eu "não estava num bom momento".

Acabei de dar vários telefonemas, desmarcando compromissos inadiáveis, uma ida ao Detran, entrega de uma máquina de fotografia ao próprio Inácio, além do pagamento de duas dívidas e a compra de alguns mantimentos caseiros. Também nada de cinema, ver os gols da rodada de ontem, coisas sobre a Seleção Brasileira ou eventuais telefonemas.

Agora estou seco de curiosidade para saber que cargas d'água esse Raskólnikov andou aprontando, a ponto de fazer um sujeito bater ponto em uma livraria, buscando seu quinhão diário de beleza.

Sinto muito, amigos, mas tenho 416 páginas pela frente. Vai ser uma luta e tanto.

Ao leitor desconhecido da Livro 7.

Notas:
Depois da crônica, retomei a leitura do Crime e Castigo e é algo estrondosamente belo, recomendo.
Voltei a atualizar o blog de poemas (www.quemerospoemas.blogspot.com)

15 comentários:

Gustavo disse...

Quem passa por Crime e Castigo não precisa ler a Bíblia.

Aliás, muitos a consideram o Evangelho do Homem. Um deles é o Cioran.

Nietzsche e Dostoyevski não se conheceram pessoalmente. Mas a biografia de Nietzsche diz que quando ele entrou na livraria e começou ali mesmo a ler Crime e Castigo, teria dito: "Eis um homem igual a mim!"

O que teria dito o escritor russo se tive lido o Zaratustra?

seu comentarista
Gustavo

Anônimo disse...

Eu li também "Assim falou Zaratustra" na livro 7, entretanto, não o ganhei de presente...

Julio Vila Nova disse...

Agora tá todo mundo curioso pra saber quem é o leitor que protagonizou essa história. Os freqüentadores da Livro 7 também devem guardar lembranças interessantes a respeito dos vendedores. Uma vez, estive lá e me deparei com um novato, um cara moço, assim, jeito de promessa de intelectual (talvez um estudante de Letras em começo de carreira). Ele veio até mim com aquele tradicionl "Diga !", e pedi o Retrato do Artista como Jovem Cão, de Dylan Thomas, ao que ele retrucou, em tom de repreensão: "Ah! você quer dizer Dylan (DAILAN) Thomas!".
Um dos mais antigos vendedores da Livro 7 é Valfrido, pense num cara gente boa ! Parece que continua lá no Espaço Pasárgada (rua da União), onde Tarcísio ficou por uns tempos depois da tristeza que foi sua saída da 7 de Setembro. Penso que, guardadas as devidas proporções, podemos considerar que a Livro 7 é a Shakespeare & Co. (a lendária livraria parisiense dos anos 20 do século passado) do Recife. mas não podemos esquecer também do Calabouço, bem ao lado, que vendia o necessário chopp gelado para as esticadas de conversa e para a devida concentração em dia de passeata, comício, etc. Bons tempos !

keila aquino disse...

"Pois Bem" Samarone... vá a luta! Vai valer a pena!
Eu já travei essa batalha e venci! Li o livro do crime ao castigo!!
Tenha boas reflexões tb!!!Beijos

cometaurbano disse...

Sama,
estou em fase de inaugurações. Agora vou a livraria com mais frequência e leio os livros por etapas. Sabe que eu não havia pensado nisto antes de ler a sua crônica?
A leitura do crime e Castigo "picado" é um bom roteiro para aqueles curtas que tratam de fatos reais. Quem é o leitor desconhecido? Esperamos mais detalhes da história. Abraço do mano PH. Ermirinha chega no sábado.

Anônimo disse...

oi, Samarone
Espero que voce encontre o "leitor anonimo" de "Crime e Castigo".
Boa sorte!
um abraco,
Claudia

Anônimo disse...

Sama , sou solidária a vc. Tenho a maior dificuldade de ler Crime e Castigo.Toda vez que tento tenho que recomeçar. Mas um dia conseguirei!!!!!Tenho uma amiga que quando fala do livro deixa a gente com inveja de não ter conseguido ainda ter esse olhar nas diversas tentativas.....
Beijos e boa sorte.Ana

Anônimo disse...

Grande sama! Estou vibrando com suas deliciosas crônicas! Obrigado pelo comentário lá no blog... Abraço!
Tiago Martins

Sonia disse...

Pois eu já li Crime e Castigo inteirinho - do crime ao castigo, como diz você. E só tinha uns 18 aninhos na época. O livro se perdeu junto com a maior parte da minha biblioteca durante uma mudança interestadual. Há pouco, isto é, 50 anos já passados, comprei outro exemplar num sebo. Mas cadê coragem pra enfrentar a re-leitura?

João Leitor disse...

Eu li "Minutos de Sabedoria" escondido na Livro 7,enquanto bolinava os peitos da menina do caixa! ha ha ha ha ha. Ela gostava !

Anônimo disse...

julio

eu, mona, xando e milha mandamos lembrancas...

Ugolino disse...

tb li crime e castigo e coincidentemente estou relendo algumas partes. Faço isso sempre que me sinto um tanto raskonikolviana .
beijos saudosos

Julio disse...

Anônimo, Saia do anonimato para eu reconhecer melhor as lembranças !

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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