segunda-feira, 22 de maio de 2006

Perambulações matinais

Segunda-feira, sete horas da manhã. Espero o ônibus para ir à escola, dar aulas. Fico esperando, com meus livros, e pratico um dos meus esportes prediletos: olhar as pessoas, os anônimos, essa legião que desconheço, e que passa, todos os dias, indo para algum lugar. À minha frente, muito quieta, diria que num estado de serenidade pura, uma moça jovem, belíssima, uma beleza intacta, com aqueles cabelos macios que caem pelos ombros. É dessas mulheres que têm uma penungem nos braços, umas sobrancelhas intensas e o olhar doce. Segura seus livros e espera o ônibus. A beleza em excesso deve também atrapalhar um pouco sua vida. Há carros que buzinam e homens que passam, de bicicleta, com aquele olhar meio faminto para ela. Aquele olhar invasivo, que vai da cabeça aos pés. Eu só observo, em silêncio, até que ela pega o Dois Irmãos/Rui Barbosa, e vai para alguma aula.


Às sete da manhã, todos os ônibus para a “cidade”, como dizemos por aqui, estão lotados. É muita gente, todos os dias. Ainda tem besta dizendo que o povo brasileiro é preguiçoso. Acho que o povo trabalha demais. Espero sempre algum ônibus mais folgadinho e embarco. Do meu ponto até o Bairro do Recife, são uns 47 minutos. No ônibus, as crianças têm as pequenas introduções à gentileza. Sempre há alguém pedindo para segurar a bolsa do outro, sempre alguém se levanta para dar o lugar ao mais velho. Hoje mesmo, vi uma mocinha pedir para segurar os cadernos de um rapaz. Sem esse pequenos afagos, essas micro-ternuras, a vida seria mais difícil.


Ah, as conversas dentro dos ônibus... Aguço sempre os ouvidos, fico atento aos detalhes. Hoje, duas senhoras conversavam muito. Melhor: falavam alto, sem se importar com os outros. Pareciam estar na cozinha de casa, mas estavam no Sítio dos Pintos/Dois Irmãos. Lá pelas tantas, a conversa girou em torno de um cachorro do filho, creio. Foram uns dez minutos falando sobre o caráter do animal.


“Aquele cachorro é triste. Outro dia, cagou em cima do sofá!”, disse uma delas. Eu, claro, já simpatizei com o vira-latas.


Adoro esse jeito do pernambucano usar as palavras. “Aquele cachorro é triste”, não quer dizer que o animal é macambúzio, depressivo, quer dizer que ele, o cão, não vale nada. “Aquilo é um triste”, se usa para dizer que o camarada é uma praga do Egito. “Eita bicho febrento” se usa para alguém não muito agradável. “Isso é que é uma miséria”, se diz quando o sujeito é muito, mas muito ruim de bola.


Sim, mas onde eu estava mesmo? Ah, no Sítio dos Pintos/Dois Irmãos, escutando admoestações sobre o cão. Informo que ali, depois do Hospital da Restauração, surgem os primeiros assentos livres, se der sorte, dá para descolar uma janelinha. Sou amante das janelas e do vento. É melhor para reparar as pessoas e criaturas, ver o bailado matinal de tanta gente, indo para tantos destinos diferentes, numa cidade que amanhece a mil por hora.


O ônibus perambula ali pelo bairro de São José, passa pelo Forte das Cinco Pontas, o suficiente para revelar a fulgurante presença dos vigilantes, muitos com aquela cara amarrotada, uns porque dormiram demais, outros porque ficaram atentos à madrugada.


Vou chegando ao Bairro do Recife, essa pérola que o Recife maltrata. Desço do ônibus, caminho um pouco e vou chegando à escola, numa rua com nome lindo e redundante: Rua do Bom Jesus. Jesus, pelo que sei, nunca poderia ser ruim. No caminho, já tem gari esfregando com raça as ruas do Recife. Flagrei um mijando atrás de uma árvore, ele me olhou meio sem graça. Tem gente ainda se espreguiçando, uns motoristas de táxi com aquela cara de tédio, já na segunda-feira.


Chego à escola cheio de livros, fotocópias, o plano de aula etc. Sou informado que me enganei com o calendário, minha aula não é hoje, mas na segunda-feira que vem.


Então pego um cafezinho venho escrever minha cronicazinha, debaixo de um toró medonho. É tanta água, que tenho medo de terminar o texto com o Recife fazendo glub glub glub.

6 comentários:

Anônimo disse...

Samarone!
Pelo menos o engano valeu para uma ótima crônica.
Uma boa segunda!! Aqui em Curitiba também está chovendo...
Grande abraço, Priscila

Cadú disse...

Sabe Samarone... concordo contigo em duas coisas:

1. Brasileiro não é preguiçoso - Aqui na Italia por exemplo. O horario de trabalho começa as 09h00m vai ate as 13h00m. Para pro almoço e só retoma as 16h00m. Meu véio são tres hora pra comer...

2. Brasileiro é educado e gentil - Duvido tu ver um italiano pedir um bolsa ou dar um lugar pra uma velhinha por exemplo. Até dá, se tiver perto de muitas mulheres etodas começarem a olhar de cara feia pra ele..

Terceiro mundo o cacete! O Brasil é muito massa! E Pernambuco mais ainda!

Ah.. outra coisa que concordo contigo: Como a cidade do Recife tá judiada rapaz..

Que horrível!

Anônimo disse...

Cadu, falar bem do Brasil na Italia é massa...

Dito disse...

beirando as veredas
enveredei por caminhos
dobrando sozinho
meu mapa do mundo.

de sons tão profundos
de imagens e sonhos
tão bons e medonhos
que vão me levar.

Cadú disse...

Po Anonimo..

To doido pra encerrar meu contrato aqui pra poder voltar. E num penso em renovar nem a pau!

Aqui existem muitas coisas boas é verdade. Mas a acolhida, o carinho, a alegria do brasileiro é incomparável. A experiencia que tenho é a seguinte: Todo ITALIANO que vai ao Brasil nao desejar mais voltar pra ITalia.. Nao encontrei exceção.

Anônimo disse...

ISSO AQUI TÁ UMA DROGA. QUALIDADE DE VIDA ZERO. SAÚDE, EDUCAÇÃO E SEGURANÇA SÃO DE CAUSAR DOR NO CORAÇÃO DE QUALQUER CIDADÃO.
A MISÉRIA BATENDO NA PORTA DO NOSSO QUARTO.
O PAÍS CAUSA TRISTEZA E O PIOR, PERSPECTIVA PARA ALIMENTAR A ESPERANÇA, DEIXOU DE EXISTIR FAZ TEMPO.