quinta-feira, 29 de março de 2007

Lembranças do início de uma guerra sem fim

Ando assistindo muito o Chaves, e vejo que eles reprisam muito os programas. Nesses dias corridos em que luto para sobreviver, dar aulas e pagar as contas, recorro ao método-chaves para não ficar escrevendo bobagens, pela absoluta falta de tempo.
Vai uma crônica que escrevi quando começou a guerra do Busch contra o povo do Iraque.
Não lembro a data. Sei que morreram milhares de pessoas, e isso é imperdoável.
Samarone
***
A guerra e a escuridão

Por Samarone Lima


Era uma noitinha bucólica, com os pais trazendo filhos das escolas em bicicletas e cães vagando à procura de algo. Na mercearia de seu Vital, as vendas de sempre – pão, big-big, geladinho, vassoura, pedaço de charque, queijo, os primeiros pedidos de cerveja ou os “quartinhos” alvissareiros. Encontrei os amigos para um cafezinho, e começamos a conversar nossas besteiras de sempre, quando alguém lembrou que em duas horas, no máximo, iria começar a guerra de Bush contra o Iraque, era preciso buscar uma TV.

Ficamos a imaginar como seria uma cidade sendo bombardeada. Trouxemos isso para nossa realidade. Aviões norte-americanos soltando bombas poderosas em cima da Igreja de Nossa Senhora da Saúde, destruindo casarões, vilas, a venda de seu Vital, nosso campinho de futebol. Pensamos nos amigos e crianças que morreriam e deu até uma tristeza, mesmo que momentânea, imaginar essas criaturas - que são quase nossos filhos também, de tanta ternura nos abraços, de tantos sorrisos – mortas inocentemente.

Começou a chover e nossa filosofia do anoitecer foi interrompida por uma explosão que veio dos céus. Corremos todos para dentro da mercearia de Vital e súbito, a escuridão chegou ao Poço da Panela. Houve um curto-circuito e a fiação elétrica começou a estourar, fazendo um barulho enorme. Enormes clarões manchavam a noite, e ficamos parecendo uns patetas desarmados na trincheira de Vital, tentando encontrar uma saída. Dona Beata, que estava na rua, estremeceu. Marcos Careca saiu à procura de fios no chão, para vender mais tarde.

Muitas horas depois, descobrimos que uma árvore tinha encostado nos fios, provocando aquela onda de estouros, que se alastrou pelo quarteirão inteiro. Seu Vital disse, com os olhos arregalados, nunca ter visto aquilo em 33 anos no Poço. Ficamos na escuridão completa, e para relaxar, sentamos e pedimos um “Detergente” (bebida produzida por vital, com cachaça, mel e limão). Acendemos velas e fomos relembrar tudo, exagerando um pouco a cada minuto.

Acho que foi neste momento, enquanto estávamos rindo à luz de velas e tomando uma aguardente com cajá, que começou o bombardeio ao Iraque. Alguém lembrou novamente, e nossa impotência permitiu pouca coisa, além de um brinde à paz e votos de que os norte-americanos entrassem pelo cano. A guerra nos encontrou com a pouca mas suficiente luz das velas.

Horas depois, quando a Celpe começou a reparar o estrago, ficamos na calçada tomando um vinho e ralhando com preço de nossas contas de eletricidade. Renata providenciou um colchão para Lucas e peguei minha cadeira de balanço. Grão de Bico começou a recitar seus belos poemas.

Era era uma noite de lua cheia, e ali no Poço, a paz estava em cada olhar, cada gesto, no sono inocente de Luquinha, em nosso impotente desejo de que as bombas sobre o Iraque fossem apenas um sonho ruim, que a guerra tão desejada pelos norte-americanos, por algum milagre, não passasse de um curto-circuito, uma falta de luz.

Foi pouco, mas foi tudo o que desejamos.

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